O PLANO DE MOBILIDADE URBANA E O FUTURO DAS CIDADES – O CARRO
COMO CAVALO DO SÉCULO XXI
RUBIM, Bárbara e LEITÃO,
Sérgio. O plano de mobilidade urbana e o futuro das cidades. São Paulo, 2013,
p. 55 – 66.
No
artigo “O plano da mobilidade urbana e o futuro das cidades”, Bárbara Rubim e
Sérgio Leitão ambos ligados ao Greenpeace Brasil desenvolvem uma crítica às
políticas públicas voltadas para a mobilidade urbana que priorizam o transporte
individual, de forma analítica, iniciando pelo processo histórico de mudanças
nos modais de mobilidade urbana.
Os autores descrevem as transformações ocorridas na transição do século XIX para o XX em Nova Iorque, devido problemas ocasionados pelo transporte movido a cavalos, como a proliferação de doenças ocasionadas pelas fezes dos animais, infestação de moscas e ratos e toda uma dificuldade de manter a limpeza da cidade dada a quantidade de excrementos nas ruas e avenidas. Apontam que a solução para tal problema, em Nova Iorque e no Brasil, deu-se por meio do veículo motorizado, onde as políticas, na forma de leis e estatutos, criaram diretrizes que priorizavam os modais individuais de transporte.
Os autores descrevem as transformações ocorridas na transição do século XIX para o XX em Nova Iorque, devido problemas ocasionados pelo transporte movido a cavalos, como a proliferação de doenças ocasionadas pelas fezes dos animais, infestação de moscas e ratos e toda uma dificuldade de manter a limpeza da cidade dada a quantidade de excrementos nas ruas e avenidas. Apontam que a solução para tal problema, em Nova Iorque e no Brasil, deu-se por meio do veículo motorizado, onde as políticas, na forma de leis e estatutos, criaram diretrizes que priorizavam os modais individuais de transporte.
Inicialmente
tal priorização resultou em “inúmeros benefícios”, tecnológica e
economicamente. Porém, no século XXI, conforme discorrem os autores, os carros
se tornaram um problema social, ambiental e de saúde análogo ao cavalo. Os
problemas relacionam-se às altas taxas de emissão de gases e consequente
poluição do ar, na taxa de mortes, redução da atividade econômica reduzindo
assim a capacidade contributiva dos municípios.
A
priorização do transporte individual gerou problemas no transporte público, com
o sucateamento dos modais de transporte coletivo, criando, conforme os autores:
“(...)
um ciclo interminável de deterioração das cidades e utilização injusta e
antidemocrática do espaço urbano - que precisa ser corrigida com urgência”
(RUBIM & LEITÃO, 2013, p.57).
Para
os autores fica claro que a política é um meio eficaz de se evitar distorções
na cultura do planejamento e foi um grande mérito da política que, por meio da
lei de Política Nacional de Mobilidade Urbana (PMNU) Nº12.587/12, obrigou os
gestores da cidade a priorizarem outros modais que não a motocicleta e o carro.
A partir dessa lei, ficou estabelecido que os municípios com mais de vinte mil
habitantes elaborassem, até abril de 2015, um Plano de Mobilidade Urbana (PMU)
que garantissem não só políticas para os modais coletivos de transporte, como a
participação civil em sua elaboração, num planejamento de curto, médio e longo
prazos. O Estatuto das Cidades, sob a lei 10.257/01 também institui para
municípios com populações acima de quinhentos mil habitantes a elaboração do
Plano de Transportes.
No
recorte dos municípios com populações acima de quinhentos mil habitantes, 44,7%
não possuem planos de transporte conforme ordenado em lei sendo que desses
somente 28,9% estão elaborando-o, e se ampliado a todos os municípios sem levar
em conta qualquer recorte populacional, somente 3,8% possuem planejamento
elaborado para a área de transportes.
O
PMU é um claro avanço, tendo em vista que os conteúdos devem ser apresentados
pelo planejamento, e institui sanções a quem descumprir as determinações, a lei
facilita a alocação de recursos para a área, que historicamente, nunca teve
destinação de forma sistemática, sendo que grande parte dos recursos
destinavam-se a cidades com mais de um milhão de habitantes.
Levantam
fragilidades na lei como a possibilidade dela não ser lei ordinária e correr o
risco de ser abandonado o plano pelos governantes. Outro ponto é a ausência de
como se darão as avaliações dos planos municipais, o que pode comprometer o
funcionamento da lei.
Os
autores em seguida fundamentam uma intervenção onde defendem a mudança nos
focos de investimento, revisão dos subsídios nos tributos sobre combustíveis,
troca do modelo de faixa azul para “parklets”,
ciclovias, ciclo faixas, alargamento das calçadas, eliminação dos
estacionamentos, instituição da taxa de congestionamento.
Finalizam
o trabalho ponderando a necessidade de se ter muita coragem para a
implementação das intervenções haja vista que haverá resistências fortes contra
as medidas.
Bárbara
Rubim e Sérgio Leitão apresentam um texto bastante didático, recomendado para
gestores públicos, estudantes das áreas de ciências sociais, urbanismo,
economia, história porque amalgama saberes dessas áreas e constrói muito
solidamente a necessidade contemporânea de se praticar políticas públicas
voltadas para os meios coletivos de transporte. O texto, embora técnico, pode
ser facilmente compreendido por leitores fora dessas áreas, inclusive sendo
recomendado para os cidadãos interessados em um projeto de intervenção.
O
texto trabalha de forma dialética, portanto dual, os temas propostos,
analisando o antes e o agora, o presente e o futuro, os benefícios e os
malefícios, ou seja, apresentando os desdobramentos por meio de suas
contradições.
O
método escolhido é adequado aos propósitos, embora existam recortes que foram
deixados de lado. Vale acrescentar que embora o usuário de carro não pague o
mesmo valor para acesso à via pública que os usuários de ônibus, o carro é
gerador de muitas despesas para o seu usuário. Conforme levantamento de preços
feito pela Agência Autoinforme para a elaboração da Inflação do Carro:
“(...)o
motorista teve uma despesa mensal de R$ 1.186,62 em 2015”, sendo que anualmente
despende-se o valor de R$14.239,42 com despesas como: combustível (32%), peças
(16%), serviços (26%), imposto (5%) e seguro (21%) (AGÊNCIA, 2015).
O
texto apresenta vigor ao compararmos a realidade objetiva vivida pela cidade de
São Paulo nos anos de 2015 e 2016, período que se acirrou a disputa pelo espaço
das ruas e avenidas. O plano de mobilidade (Planmob) defendido pela atual
gestão do petista Fernando Haddad em muito se parece com o apresentado pelos
autores e tem metas para “os próximos 15 anos” (PREFEITURA, 2015, p.7).
De
fato, não foi tarefa fácil para o prefeito, que encontra resistência dos
usuários de carros ao decidir priorizar as ciclo faixas, fechar a avenida
Paulista aos domingos, delimitar corredores de ônibus em avenidas que cortam
bairros nobres como a Giovanni Gronchi, no Morumbi, reduzir a velocidade das vias
expressas. Dificuldade já presumida pelo autores (RUBIM e LEITÃO, 2015, p.62) “Assim, está claro que é preciso coragem para alterar o atual estado das
coisas nas grandes e médias cidades do mundo.”
Portanto, mais que um texto fugaz, que apresenta uma proposta com pouca
usabilidade, os autores, foram capazes de fazer uma leitura fidedigna dos
problemas propostos a ponto de indicarem as dificuldades das gestões ao
debaterem o tema. Desta forma, é um texto atual e que converge com a realidade
objetiva e é de grande utilidade.
REFERÊNCIAS
AGÊNCIA,
Autoinforme. “Gasto com carro passou de
R$ 14 mil no ano” - Disponível em:
Acessado em: 22 de outubro de 2016
PREFEITURA.
“Plano de mobilidade de São Paulo”, São
Paulo, 2015. Disponível em:
Acessado em: 03 de novembro de 2016
RUBIM, Barbara; LEITÃO,
Sérgio. O plano de mobilidade urbana e o
futuro das cidades. Estud.
av., São Paulo , v. 27, n. 79, p. 55-66,
2013 . Disponível em: .
Acessado em: 22 de outubro de 2016.

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