sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A importância da alteridade expressada na música All the Love

Para o seguinte texto preparei uma análise da música "All the Love" da cantora britânica Kate Bush. A cantora é conhecida na sua carreira por desenvolver em suas músicas facetas incomuns sobre o amor e é claro por sua incomparável voz.

Deixo a música para vocês curtirem:
Pois bem, então o que tem haver, num blog que se propõe a falar de ciências sociais, a música citada com o medo do outro ou a falta de alteridade. Bom é o que esse texto vai revelar analisando a canção. Sem mais delongas, vamos começar:

Para compreender o ponto, primeiro precisamos entender o que é alteridade e porque é importante assimilar esse conceito. A alteridade pode ter alterações de significação à partir do contexto em que é aplicada, na psicologia, alteridade é o "reconhecimento por parte dos indivíduos que os outros são diferentes dele", nesse caso, afasto essa definição e abraço a definição filosófica de alteridade que é se colocar no lugar do outro, ser o outro.

Pois bem, essa noção é bastante importante e é fundamental nos dias de hoje. Hegemonicamente vivemos em um mundo liberal, onde há uma propaganda bastante forte que prega o individualismo. A noção de coletivo se perde e tal perda é perigosa. Se formos analisar o caso da Síria, que vive uma guerra civil, devido primeiramente a situação política, onde as relações dos grupos ali inseridos estão bastante conflituosas, e o conflito religioso bastante acentuado, percebemos que a perda da alteridade acabou destruindo qualquer coesão social, por mais frágil que existisse ali.
E depois, comprovamos que a alteridade está em falta não só entre os sírios, mas de países ditos "desenvolvidos" que negam o amparo para os refugiados da Síria. Alguns ainda generalizam a questão jogando todos os sírios numa vala comum: a dos terroristas. E a falta de percepção do outro, a pouca vontade de nos colocarmos no lugar do outro é espaço aberto para sua negação e esse espaço é imensamente propenso ao preconceito e xenofobia. O Brexit é a representação máxima desse caso.

Sabemos o que é alteridade, e porque ela é importante agora vamos para a análise da música:

All the Love conta a história de uma pessoa que morreu, e como toda música da Kate Bush, num ambiente dramático onde estava no braço de seus amigos que choravam e beijavam seu rosto com suas lágrimas. Essa pessoa estava reclusa e se queixa do fato desses amigos estarem longe por anos e buscarem por essa pessoa somente na morte:

The first time I died / A primeira vez que morri
Was in the arms of good friends of mine. / Foi nos braços de bons amigos meus.
They kiss me with tears. / Eles beijam-me com as lágrimas.
They hadn't been near me for years. / Eles não estiveram perto de mim por anos.
Say, why do it now / Diga, porque agora
When I won't be around, I'm going out? / Quando não estarei mais por perto, estou saindo?
Os amigos também se queixam pelo fato dela não ter procurado por eles:

"We needed you  / "Nós precisavamos de você
To love us too. / Para nos amar também.
We wait for your move." / Esperamos por seu movimento"

Numa segunda parte da música o eu-lírico fala das suas condições emocionais e na ponte inverte a queixa:

Only tragedy allows the release / Apenas a tragédia permite a libertação
Of love and grief never normally seen. / Do amor e da avareza que normalmente nunca são vistos.
I didn't want to let them see me weep, / Eu não quero que eles me vejam chorando,
I didn't want to let them see me weak, / Não quero que me vejam fraca,
But I know I have shown / Mas eu sei que mostrei
That I stand at the gates alone. / Que estou nos portões sozinha.

"I needed you / Eu precisava de vocês 
To love me too. / Para me amar também
I wait for your move."/ Esperei por sua movimentação

Ambos esperavam a movimentação de um dos lados, seja os amigos que queriam o amor do eu-lírico, seja do eu-lírico por parte dos amigos. Nessa mútua espera, os agentes ficaram passivos e não agiram. Ambos, na falta de suas respectivas alteridades, na falta de tato com o outro, não puderam sentir as necessidades emocionais entre si.

Isso implica dizer num caso que demonstra que a alteridade é necessária não somente para compreender outros povos, mas para perceber o outro como uma diferença radical em relação a si próprio. É nessa relação dialógica entre o eu e o outro que podemos entender nós mesmos. Pensem em um espelho que não reflete a si mesmo, é assim que nos diferenciamos dos demais, ao apontar nos outros as nossas diferenças. Essa é uma análise por vezes saudável, mas que engendra alguns riscos no momento em que não nos maravilhamos com as diferenças e a usamos para julgar, condenar o outro. O exercício da alteridade vem para nos forçar a pensar na diferença e nos maravilharmos com ela.

Kate Bush aponta o que para ela pode ter sido um dos problemas da pós modernidade nas relações. A forma como nos relacionamos com os meios de comunicação e que por vezes impedem esse espelhamento. Kate Bush genericamente chama-as na música de máquinas.
The next time I dedicate / Da próxima vez em que eu dedicar
My life's work to the friends I make, / 
I give them what they want to hear. / Darei o que querem ouvir
They think I'm up to something weird / Eles acham que estou pronta para algo estranho
And up rears the head of fear in me. / E assim se ergue a cabeça do medo em mim.
So now when they ring / Então agora quando eles tocam
I get my machine to let them in. / Eu tomo a máquina para deixá-los entrar.

Percebam que as máquinas servem como meio para que os outros entrem, porém, diferente do que as propagandas tentam pregar, as fronteiras entre essas pessoas, ao se comunicarem por meio das máquinas (e aqui abre-se um leque: redes sociais, e-mail, telefone) não são capazes de gerar um espelhamento completo, ou seja, são incapazes de reproduzir a alteridade. O eu-lírico deixa isso claro no quarto e quinto versos da estrofe acima. O estranho (lê-se o outro) gera esse medo.
Será?
A grande tragédia não está somente no cenário de morte descrito por Kate Bush, mas no campo simbólico onde as relações são solapadas por uma estrutura social que nega o contato entre os seres. E todos lamentam na canção que não foram capazes de ultrapassar essa barreira criada por essa pós modernidade das máquinas, queixa que se expressa no refrão onde o eu-lírico e seus amigos dizem:
All the love, all the love, / Todo o amor, todo o amor
All the love you should have given. / Todo amor que vocês poderiam ter dado
All the love, all the love, / Todo amor, todo amor
All the love we could have given. Todo o amor que nós poderíamos ter dado
All the love, all the love, / Todo o amor, todo o amor
All the love... / Todo o amor...

A música ainda representa as ligações telefônicas trocadas de forma monótona e pouco afetiva. A falta de alteridade nesse grupo descrito foi condição para a falta de amor entre os agentes. Amor que eles poderiam ter dado mas que a falta de alteridade os impediu de prover tal sentimento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário