Deixo a música para vocês curtirem:
Para compreender o ponto, primeiro precisamos entender o que é alteridade e porque é importante assimilar esse conceito. A alteridade pode ter alterações de significação à partir do contexto em que é aplicada, na psicologia, alteridade é o "reconhecimento por parte dos indivíduos que os outros são diferentes dele", nesse caso, afasto essa definição e abraço a definição filosófica de alteridade que é se colocar no lugar do outro, ser o outro.
Pois bem, essa noção é bastante importante e é fundamental nos dias de hoje. Hegemonicamente vivemos em um mundo liberal, onde há uma propaganda bastante forte que prega o individualismo. A noção de coletivo se perde e tal perda é perigosa. Se formos analisar o caso da Síria, que vive uma guerra civil, devido primeiramente a situação política, onde as relações dos grupos ali inseridos estão bastante conflituosas, e o conflito religioso bastante acentuado, percebemos que a perda da alteridade acabou destruindo qualquer coesão social, por mais frágil que existisse ali.
Sabemos o que é alteridade, e porque ela é importante agora vamos para a análise da música:
All the Love conta a história de uma pessoa que morreu, e como toda música da Kate Bush, num ambiente dramático onde estava no braço de seus amigos que choravam e beijavam seu rosto com suas lágrimas. Essa pessoa estava reclusa e se queixa do fato desses amigos estarem longe por anos e buscarem por essa pessoa somente na morte:
"We needed you / "Nós precisavamos de você
Numa segunda parte da música o eu-lírico fala das suas condições emocionais e na ponte inverte a queixa:
Ambos esperavam a movimentação de um dos lados, seja os amigos que queriam o amor do eu-lírico, seja do eu-lírico por parte dos amigos. Nessa mútua espera, os agentes ficaram passivos e não agiram. Ambos, na falta de suas respectivas alteridades, na falta de tato com o outro, não puderam sentir as necessidades emocionais entre si.
Isso implica dizer num caso que demonstra que a alteridade é necessária não somente para compreender outros povos, mas para perceber o outro como uma diferença radical em relação a si próprio. É nessa relação dialógica entre o eu e o outro que podemos entender nós mesmos. Pensem em um espelho que não reflete a si mesmo, é assim que nos diferenciamos dos demais, ao apontar nos outros as nossas diferenças. Essa é uma análise por vezes saudável, mas que engendra alguns riscos no momento em que não nos maravilhamos com as diferenças e a usamos para julgar, condenar o outro. O exercício da alteridade vem para nos forçar a pensar na diferença e nos maravilharmos com ela.
Kate Bush aponta o que para ela pode ter sido um dos problemas da pós modernidade nas relações. A forma como nos relacionamos com os meios de comunicação e que por vezes impedem esse espelhamento. Kate Bush genericamente chama-as na música de máquinas.
Percebam que as máquinas servem como meio para que os outros entrem, porém, diferente do que as propagandas tentam pregar, as fronteiras entre essas pessoas, ao se comunicarem por meio das máquinas (e aqui abre-se um leque: redes sociais, e-mail, telefone) não são capazes de gerar um espelhamento completo, ou seja, são incapazes de reproduzir a alteridade. O eu-lírico deixa isso claro no quarto e quinto versos da estrofe acima. O estranho (lê-se o outro) gera esse medo.
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| Será? |
A música ainda representa as ligações telefônicas trocadas de forma monótona e pouco afetiva. A falta de alteridade nesse grupo descrito foi condição para a falta de amor entre os agentes. Amor que eles poderiam ter dado mas que a falta de alteridade os impediu de prover tal sentimento.


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