Sumário
Introdução
O
seguinte relatório apresentará um breve resumo dos capítulos “Alguns problemas
de metodologia nas ciências sociais” e “Raça e Progresso”, disponíveis na obra organizada
por Celso Castro “Antropologia Cultural”, onde são coletados textos e discursos
de Franz Boas. O objetivo é compreender a maneira como se esquematizou o
trabalho do antropólogo, quais eram as dificuldades encontradas pelo autor no
ato de fazer antropologia e qual era o contexto histórico no qual ele
desenvolveu sua análise. A compreensão desses pontos serve para apresentar, de
forma dialética, a construção de saber do autor.
1. Alguns problemas de metodologia em ciências sociais
Franz
Boas busca trazer algumas dificuldades encontradas na metodologia em ciências
sociais, como alguns dos problemas encontrados podemos enumerar, a dupla
determinação do ser humano, ao mesmo tempo que somos sociais, somos naturais, a
unilateralidade da análise, a pessoalização da análise no método etnográfico,
ou seja, analisar o comportamento do outro sob a ótica de si mesmo. Sobre isso
Boas diz,
Nessas
investigações, temos de nos precaver contra um perigo em particular. Podemos
encontrar similaridades objetivas que nos dêem uma enganosa impressão de
identidade, quando de fato podemos estar lidando com fenômenos bastante
distintos. Exemplo disso são as amplamente difundidas cerimônias da
adolescência, sobretudo as dos meninos, que prontamente associamos ao estado
mental conturbado que acompanha a aproximação da maturidade. Tenho poucas
dúvidas de que esses ritos não têm nada a ver com aquelas atitudes mentais que
nos são familiares em nossa civilização (BOAS, 2005, p.57)
As
preocupações de Boas estavam ligadas, principalmente com o método comparativo,
no qual, ele tece severas críticas e na falta de substância das análises, que
ora utilizavam um único método. Para Boas era importante reconhecer os povos
por uma tríplice “bio psico social”, ou seja, analisar não somente a história,
mas o ambiente geográfico, os aspectos biológicos e a estrutura social presente
e apresentar tais dados de uma forma descritiva que contemple essa
multiplicidade do ser. Portanto aqui, ele rompe com os pensamentos
deterministas, seja biológico, seja geográfico ou da historiografia em exagero.
Boas assevera,
O
erro da antiga antropologia consistiu na utilização de material desse tipo,
acumulado sem exame crítico, para as reconstruções históricas. Para isso ele
não tem valor. Um dos enganos da antropologia moderna reside, a meu ver, na
ênfase exagerada que dá à reconstrução histórica - cuja importância não deveria
ser minimizada - como algo oposto a um estudo aprofundado do indivíduo sob a
pressão da cultura em que ele vive. (BOAS, 2005, p 65 -66)
2. Contextualização histórica de “Raça e Progresso”
Franz
Boas viveu nos Estados Unidos da América (EUA) entre 1858 e 1942, e durante
esse período vigorou-se as leis de Jim Crow (1876 – 1965) nos estados do sul dos
EUA, institucionalizando a segregação racial no país. No campo das ciências e filosofia havia
grande produção de pesquisas voltadas ao entendimento de que o negro era uma
raça inferior ao branco, negando dessa forma direitos e justificando a
escravidão.
Cesare
Lombroso (1835- 1909) foi um dos nomes mais influentes da antropologia criminal
e defendia a tese que criminosos possuíam características inatas e que seria
possível prever quem vai cometer os crimes. Nessa linha de pensamento foi
adotado, por exemplo, a craniometria, que consistia em medir o crânio do
indivíduo e a depender das medidas do crânio determinar se é ou não criminoso.
No
mesmo período histórico, Arthur de Gobineau (1816 – 1882) defendeu a tese (após
análise do caso brasileiro), que a miscigenação entre brancos e negros (que ele
chama de degenerados) não se perpetuaria, ou seja, “não reproduzem além de um
número limitado de gerações”.
Ainda
no Brasil, João Baptista de Lacerda, defendia a tese do branqueamento, ou seja,
que conforme passavam as gerações, os filhos de miscigenados seriam brancos.
Sendo esse um dos motivos para a vinda de italianos para o Brasil, uma vez que o
governo da época compreendia que só poderia haver progresso, “limpando o país”
da raça negra.
A
redenção de Cam, quadro do pintor Modesto Brocos (1852-1936), escancarou, por
meio de sua arte, a tese do branqueamento relacionando com a crença popular de
que os negros descendem de Cam, filho de Noé, amaldiçoado por zombar da nudez e
embriaguez de seu pai. O quadro, portanto, se chama “A redenção de Cam” ao
mostrar que a maldição foi perdoada pelo branqueamento do povo negro.
Figura 1:
Disponível em: < http://tinyurl.com/ovtykg2 >
À
esquerda está a matriarca negra da família com o olhar e mão orientados para o
alto (como se recebesse uma provisão divina), no centro da imagem temos sua
filha (mestiça/”mulata”) e em seu colo o neto (branco) e à direita seu genro
branco, demonstrando o embranquecimento conforme passam as gerações.
3. Raça e Progresso
Raça
e progresso trata-se de uma “conferência proferida no encontro da American
Association for the Advancement of Science, Pasadena, 15.6.1931. Franz Boas
estava então assumindo a presidência da associação” (BOAS, 2005, p.67) onde
Boas se insere na discussão de mestiçagem e introduz na fala a necessidade de
separar “os aspectos biológicos e psicológicos das implicações sociais e
econômicas da questão”, já trazendo logo seu posicionamento contrário ao
discurso da época que preconizava a vida social de negros e mestiços a partir
de características biológicas e psicológicas.
Em
seguida Franz Boas delimita o conceito de raça dado pela sociedade como “grupo
de pessoas que têm em comum algumas características corporais e talvez até
mentais”, e traça alguns pontos de questionamento sobre os conceitos de
hereditariedade das características de raça e determinar por elas a sua origem
geográfica, ele diz:
“Seria
um empreendimento temerário determinar a localidade na qual a pessoa nasceu
unicamente a partir de suas características corporais. Em muitos casos, podemos
ser auxiliados em tal propósito por maneiras de arrumar o cabelo, maneirismos
peculiares de movimentos e pela indumentária, mas esses traços não devem ser
tomados de forma equivocada como essencialmente hereditários.” (BOAS, 2005,
p.69)
Com essa fala, ele quer dizer que é mais fácil
determinar pela cultura a origem de uma pessoa do que por suas características
biológicas e abre espaço para outro argumento sobre hereditariedade. Onde,
comparativamente, somente determinando biologicamente os indivíduos, suas
diferenças não lhe permitem falar de traços raciais hereditários. Portanto, ao
traçar esses argumentos, Boas se distancia dos determinismos biológicos e
geográficos.
‘Nesses
casos, não é portanto apropriado falar de traços hereditários no tipo racial
como um todo, pois muitos deles também ocorrem em outros tipos raciais. Traços
raciais hereditários deveriam ser compartilhados por toda uma população, para
que se pudesse realçá- los em contraposição a outras populações.” (BOAS, 2005,
p. 69 – 70)
Boas
rebusca na história argumentos de que a mistura entre raças não desencadeia um
empecilho para o progresso e, portanto, não é a mestiçagem fator de
degeneração, moral, biológica ou econômica. Para tal, compara o período de
grandeza espanhola, com grande mistura de raças, com a América do plantation. Ele diz:
“É
interessante observar que a grandeza espanhola sucedeu o período de maior
mistura racial, e que seu declínio começou quando a população tornou-se
estável, e a imigração foi interrompida. Isso deveria fazer com que parássemos
para pensar, antes de falar sobre os perigos da mistura de tipos europeus. O
que está acontecendo hoje na América do Norte é uma repetição, em maior escala
e num período de tempo menor, daquilo que ocorreu na Europa durante os séculos
em que os povos da Europa setentrional ainda não estavam firmemente assentados
sobre o solo.” (BOAS, 2005, p.71)
Para
Boas, diferentemente de Gobineau, não há qualquer evidência que o acasalamento
entre indivíduos de diferentes raças, seja entre homens e animais gere uma
prole “menos vigorosa” (BOAS, 2005, p.72) que a de seus ancestrais. E provoca
ao dizer que a nobreza europeia é “de origem muito misturada” (BOAS, 2005, p.
72).
Outro
questionamento de Boas sobre os discursos raciais eram os testes de
inteligência, onde Boas percebe que eram baseados em nossas experiências
culturais. Mesma linha de pensamento para as questões psíquicas. Onde a
pergunta chave é: “em que proporção a bagagem cultural e a base biológica da
personalidade são responsáveis pelas diferenças observadas?” (BOAS, 2005, p.81)
Por
fim, finaliza o diálogo com os autores numa provocação quanto à antipatia
racial, ou seja, uma repulsa natural por outras raças. Ele nega que tal
comportamento quanto a outras raças seja inato e natural e que essa antipatia
tenha como função o aperfeiçoamento da raça humana. Reconhecer tal conceito
seria reconhecer e institucionalizar o racismo. Sobre tal posicionamento Boas
diz:
A esse
respeito, discordo de sir Arthur Keith, a quem se atribui a afirmação, na
conferência já referida, de que "a natureza implantou em vocês a antipatia
e o preconceito raciais para cumprir sua própria finalidade - o aperfeiçoamento
da humanidade por meio da diferenciação racial': Eu o desafio a provar que a
antipatia racial é "implantada pela natureza': e não o efeito de causas
sociais atuantes em todo grupo social fechado, não importando se ele seja
racialmente heterogêneo ou homogêneo. A completa falta de antipatia sexual e o
enfraquecimento da consciência racial em comunidades nas quais as crianças
crescem como um grupo quase homogêneo; a ocorrência de antipatias igualmente
fortes entre grupos sectários, ou entre estratos sociais.
Conclusão
Boas é importante por esclarecer como a
antropologia moderna deveria se guiar. Rompeu com os determinismos e com o
método puramente historiográfico e adotou um método tríplice, que analisa
simultaneamente todos esses aspectos.
Outro ponto de importante relevância é
reconhecer que as culturas possuem uma lógica própria e desvendar essa lógica é
parte fundamental do método etnográfico. Assevera que não devemos analisar um
processo sob os olhos de sua cultura, mas tentar despir-se dela.
Boas foi importante também nas questões
raciais. Onde, por meio de sua antropologia, questionou as teorias raciais, tão
em moda em seu tempo.
BOAS, Franz, “Antropologia Cultural”, org.
Celso Castro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005, 2ª Ed.

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