segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ANÁLISE: FRANZ BOAS – ANTROPOLOGIA CULTURAL



Sumário

Introdução

O seguinte relatório apresentará um breve resumo dos capítulos “Alguns problemas de metodologia nas ciências sociais” e “Raça e Progresso”, disponíveis na obra organizada por Celso Castro “Antropologia Cultural”, onde são coletados textos e discursos de Franz Boas. O objetivo é compreender a maneira como se esquematizou o trabalho do antropólogo, quais eram as dificuldades encontradas pelo autor no ato de fazer antropologia e qual era o contexto histórico no qual ele desenvolveu sua análise. A compreensão desses pontos serve para apresentar, de forma dialética, a construção de saber do autor.

1. Alguns problemas de metodologia em ciências sociais


Franz Boas busca trazer algumas dificuldades encontradas na metodologia em ciências sociais, como alguns dos problemas encontrados podemos enumerar, a dupla determinação do ser humano, ao mesmo tempo que somos sociais, somos naturais, a unilateralidade da análise, a pessoalização da análise no método etnográfico, ou seja, analisar o comportamento do outro sob a ótica de si mesmo. Sobre isso Boas diz,
Nessas investigações, temos de nos precaver contra um perigo em particular. Podemos encontrar similaridades objetivas que nos dêem uma enganosa impressão de identidade, quando de fato podemos estar lidando com fenômenos bastante distintos. Exemplo disso são as amplamente difundidas cerimônias da adolescência, sobretudo as dos meninos, que prontamente associamos ao estado mental conturbado que acompanha a aproximação da maturidade. Tenho poucas dúvidas de que esses ritos não têm nada a ver com aquelas atitudes mentais que nos são familiares em nossa civilização (BOAS, 2005, p.57)
As preocupações de Boas estavam ligadas, principalmente com o método comparativo, no qual, ele tece severas críticas e na falta de substância das análises, que ora utilizavam um único método. Para Boas era importante reconhecer os povos por uma tríplice “bio psico social”, ou seja, analisar não somente a história, mas o ambiente geográfico, os aspectos biológicos e a estrutura social presente e apresentar tais dados de uma forma descritiva que contemple essa multiplicidade do ser. Portanto aqui, ele rompe com os pensamentos deterministas, seja biológico, seja geográfico ou da historiografia em exagero. Boas assevera,
O erro da antiga antropologia consistiu na utilização de material desse tipo, acumulado sem exame crítico, para as reconstruções históricas. Para isso ele não tem valor. Um dos enganos da antropologia moderna reside, a meu ver, na ênfase exagerada que dá à reconstrução histórica - cuja importância não deveria ser minimizada - como algo oposto a um estudo aprofundado do indivíduo sob a pressão da cultura em que ele vive. (BOAS, 2005, p 65 -66)

2. Contextualização histórica de “Raça e Progresso”


Franz Boas viveu nos Estados Unidos da América (EUA) entre 1858 e 1942, e durante esse período vigorou-se as leis de Jim Crow (1876 – 1965) nos estados do sul dos EUA, institucionalizando a segregação racial no país.  No campo das ciências e filosofia havia grande produção de pesquisas voltadas ao entendimento de que o negro era uma raça inferior ao branco, negando dessa forma direitos e justificando a escravidão.
Cesare Lombroso (1835- 1909) foi um dos nomes mais influentes da antropologia criminal e defendia a tese que criminosos possuíam características inatas e que seria possível prever quem vai cometer os crimes. Nessa linha de pensamento foi adotado, por exemplo, a craniometria, que consistia em medir o crânio do indivíduo e a depender das medidas do crânio determinar se é ou não criminoso.
No mesmo período histórico, Arthur de Gobineau (1816 – 1882) defendeu a tese (após análise do caso brasileiro), que a miscigenação entre brancos e negros (que ele chama de degenerados) não se perpetuaria, ou seja, “não reproduzem além de um número limitado de gerações”.
Ainda no Brasil, João Baptista de Lacerda, defendia a tese do branqueamento, ou seja, que conforme passavam as gerações, os filhos de miscigenados seriam brancos. Sendo esse um dos motivos para a vinda de italianos para o Brasil, uma vez que o governo da época compreendia que só poderia haver progresso, “limpando o país” da raça negra.
A redenção de Cam, quadro do pintor Modesto Brocos (1852-1936), escancarou, por meio de sua arte, a tese do branqueamento relacionando com a crença popular de que os negros descendem de Cam, filho de Noé, amaldiçoado por zombar da nudez e embriaguez de seu pai. O quadro, portanto, se chama “A redenção de Cam” ao mostrar que a maldição foi perdoada pelo branqueamento do povo negro.   
Figura 1: Disponível em: < http://tinyurl.com/ovtykg2 >
À esquerda está a matriarca negra da família com o olhar e mão orientados para o alto (como se recebesse uma provisão divina), no centro da imagem temos sua filha (mestiça/”mulata”) e em seu colo o neto (branco) e à direita seu genro branco, demonstrando o embranquecimento conforme passam as gerações.

3. Raça e Progresso

Raça e progresso trata-se de uma “conferência proferida no encontro da American Association for the Advancement of Science, Pasadena, 15.6.1931. Franz Boas estava então assumindo a presidência da associação” (BOAS, 2005, p.67) onde Boas se insere na discussão de mestiçagem e introduz na fala a necessidade de separar “os aspectos biológicos e psicológicos das implicações sociais e econômicas da questão”, já trazendo logo seu posicionamento contrário ao discurso da época que preconizava a vida social de negros e mestiços a partir de características biológicas e psicológicas.
Em seguida Franz Boas delimita o conceito de raça dado pela sociedade como “grupo de pessoas que têm em comum algumas características corporais e talvez até mentais”, e traça alguns pontos de questionamento sobre os conceitos de hereditariedade das características de raça e determinar por elas a sua origem geográfica, ele diz:
“Seria um empreendimento temerário determinar a localidade na qual a pessoa nasceu unicamente a partir de suas características corporais. Em muitos casos, podemos ser auxiliados em tal propósito por maneiras de arrumar o cabelo, maneirismos peculiares de movimentos e pela indumentária, mas esses traços não devem ser tomados de forma equivocada como essencialmente hereditários.” (BOAS, 2005, p.69)
Com essa fala, ele quer dizer que é mais fácil determinar pela cultura a origem de uma pessoa do que por suas características biológicas e abre espaço para outro argumento sobre hereditariedade. Onde, comparativamente, somente determinando biologicamente os indivíduos, suas diferenças não lhe permitem falar de traços raciais hereditários. Portanto, ao traçar esses argumentos, Boas se distancia dos determinismos biológicos e geográficos.
‘Nesses casos, não é portanto apropriado falar de traços hereditários no tipo racial como um todo, pois muitos deles também ocorrem em outros tipos raciais. Traços raciais hereditários deveriam ser compartilhados por toda uma população, para que se pudesse realçá- los em contraposição a outras populações.” (BOAS, 2005, p. 69 – 70)
Boas rebusca na história argumentos de que a mistura entre raças não desencadeia um empecilho para o progresso e, portanto, não é a mestiçagem fator de degeneração, moral, biológica ou econômica. Para tal, compara o período de grandeza espanhola, com grande mistura de raças, com a América do plantation. Ele diz:
“É interessante observar que a grandeza espanhola sucedeu o período de maior mistura racial, e que seu declínio começou quando a população tornou-se estável, e a imigração foi interrompida. Isso deveria fazer com que parássemos para pensar, antes de falar sobre os perigos da mistura de tipos europeus. O que está acontecendo hoje na América do Norte é uma repetição, em maior escala e num período de tempo menor, daquilo que ocorreu na Europa durante os séculos em que os povos da Europa setentrional ainda não estavam firmemente assentados sobre o solo.” (BOAS, 2005, p.71)
Para Boas, diferentemente de Gobineau, não há qualquer evidência que o acasalamento entre indivíduos de diferentes raças, seja entre homens e animais gere uma prole “menos vigorosa” (BOAS, 2005, p.72) que a de seus ancestrais. E provoca ao dizer que a nobreza europeia é “de origem muito misturada” (BOAS, 2005, p. 72).
Outro questionamento de Boas sobre os discursos raciais eram os testes de inteligência, onde Boas percebe que eram baseados em nossas experiências culturais. Mesma linha de pensamento para as questões psíquicas. Onde a pergunta chave é: “em que proporção a bagagem cultural e a base biológica da personalidade são responsáveis pelas diferenças observadas?” (BOAS, 2005, p.81)
Por fim, finaliza o diálogo com os autores numa provocação quanto à antipatia racial, ou seja, uma repulsa natural por outras raças. Ele nega que tal comportamento quanto a outras raças seja inato e natural e que essa antipatia tenha como função o aperfeiçoamento da raça humana. Reconhecer tal conceito seria reconhecer e institucionalizar o racismo. Sobre tal posicionamento Boas diz:
A esse respeito, discordo de sir Arthur Keith, a quem se atribui a afirmação, na conferência já referida, de que "a natureza implantou em vocês a antipatia e o preconceito raciais para cumprir sua própria finalidade - o aperfeiçoamento da humanidade por meio da diferenciação racial': Eu o desafio a provar que a antipatia racial é "implantada pela natureza': e não o efeito de causas sociais atuantes em todo grupo social fechado, não importando se ele seja racialmente heterogêneo ou homogêneo. A completa falta de antipatia sexual e o enfraquecimento da consciência racial em comunidades nas quais as crianças crescem como um grupo quase homogêneo; a ocorrência de antipatias igualmente fortes entre grupos sectários, ou entre estratos sociais.

Conclusão

Boas é importante por esclarecer como a antropologia moderna deveria se guiar. Rompeu com os determinismos e com o método puramente historiográfico e adotou um método tríplice, que analisa simultaneamente todos esses aspectos.
Outro ponto de importante relevância é reconhecer que as culturas possuem uma lógica própria e desvendar essa lógica é parte fundamental do método etnográfico. Assevera que não devemos analisar um processo sob os olhos de sua cultura, mas tentar despir-se dela.
Boas foi importante também nas questões raciais. Onde, por meio de sua antropologia, questionou as teorias raciais, tão em moda em seu tempo.


BOAS, Franz, “Antropologia Cultural”, org. Celso Castro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005, 2ª Ed.

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