SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO
2. USUÁRIO DO LEMA
3. INDÚSTRIA CULTURAL
4. A MULTIDÃO
5. CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1.
INTRODUÇÃO
Um
bradar parece estar tomando conta de parte da população: “O povo não é bobo!
Abaixo à Rede Globo!” O lema carrega denúncias como manipulação midiática sobre
as questões políticas, marcada pela falta de imparcialidade para cobrir fatos
de interesse nacional, assim como o enaltecimento de interesses das elites
(sobretudo econômicas e políticas).
Em
pesquisa, de abordagem domiciliar realizada pela FPAbramo (Fundação Perseu
Abramo) no período de 20 de abril e 06 de maio de 2013, intitulada
“Democratização da mídia” , foram colhidas 2.400 (duas mil e quatrocentas)
entrevistas, tendo como objetivo “investigar a percepção dos brasileiros sobre
os meios de comunicação” (FUNDAÇÃO, 2013, p.4). A pesquisa foi orientada pelo sociólogo
Gustavo Venturi (USP) e Vilma Bokany (NEOP - FGV/EAESP) e nos ajudará a
compreender sob qual contexto social “nasceu” a palavra de ordem contra a maior
emissora de televisão do país.
E para completar a investigação que desenvolve
a hipótese de que “O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo!” possui ligação
direta e é consequência da mudança de percepção da população em relação à mídia,
faz-se necessário compreender o conceito de “indústria cultural” estudado por Theodor
W. Adorno. O aprofundamento desse tema é importante para compreender as mídias
como um sistema onde todos os meios de comunicação estão trabalhando em
conjunto (ADORNO, 1986, p.99), e para compreender os reais interesses de tal
sistema.
2.
USUÁRIO DO LEMA
É
importante delimitar o usuário do lema de estudo “O povo não é bobo, abaixo a
Rede Globo”, que nesse caso pode ser considerado uma multidão. Multidão é feita
de singularidades que se expressam politicamente em busca do comum (TIBURI,
2015, p.51). Nesse sentido, podemos dizer que os usuários das palavras de ordem
se organizam em multidão, uma vez que, embora os indivíduos possuam
singularidades (principalmente no que concerne a posição política), há união em
torno do fato de perceberem os meios de comunicação de massa como possuidores
de interesses destoantes da população.
3.
INDÚSTRIA CULTURAL
É
necessário compreender os meios de comunicação e seu propósito de existência
para entender como a sociedade capitalista utiliza-o. Para o sociólogo alemão,
Theodor W. Adorno os meios de comunicação constituem um sistema da indústria
cultural cujo propósito é manipular as pessoas por meio do reforço do
empirismo, onde a vida “é o prolongamento sem ruptura do que se descobre no
filme”. A forma de manipulação é ideológica e vendida por meio da cultura de
massas (ADORNO, 1986, p.104). Massa que repete os reclames da publicidade de
forma ainda mais estereotipada. E toda essa influência causa uma catarse, ou
seja, uma separação do homem com sua essência, corrompendo-o a partir da perda
de nossa capacidade de análise subjetiva (ADORNO, 1986, p.118).
Cultura de massas é a “cultura-mercadoria”, ou seja, é a cultura colocada no mercado como produto para uma massa, “um grupo de pessoas manipuláveis, de singularidade anulada” (TIBURI, 2015, p.51). No contexto da multidão e do brado “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, as notícias (sobretudo políticas) são a mercadoria, a propaganda vendida para as massas com propósitos pessoais.
Cultura de massas é a “cultura-mercadoria”, ou seja, é a cultura colocada no mercado como produto para uma massa, “um grupo de pessoas manipuláveis, de singularidade anulada” (TIBURI, 2015, p.51). No contexto da multidão e do brado “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, as notícias (sobretudo políticas) são a mercadoria, a propaganda vendida para as massas com propósitos pessoais.
É o
caráter manipulador que opera na formação das massas. Os meios de comunicação
têm um papel fundamental nesse processo: a propaganda disfarçada de jornalismo
não consegue esconder o seu fascismo (...) (TIBURI, 2015, p.52).
E é sobre esse “insight”
de mídia como mercadoria, ou seja, dessa nova percepção, dessa nova maneira de
encarar a indústria cultural, que as palavras de ordem tomam forma de símbolo,
de resistência e esclarecimento, de liberdade e ruptura entre as massas, e de
constituição de uma multidão emancipada e conectada com o sentimento de
desconfiança em relação aos meios de
comunicação.
4.
A MULTIDÃO
A
multidão, embora realize referência direta à poderosa emissora de televisão,
desenvolve a crítica de forma ampla, vociferando contra outros inúmeros meios
de comunicação de massa: revistas, jornais, sítios de internet e emissoras de
televisão de sinal aberto ou fechado. Dentre os “alvos” do grupo estão: IstoÉ,
Veja, Época, Estadão, entre outros.
No
dia 01/04/2015, integrantes da multidão estavam em manifestação diante do
prédio da Rede Globo, ano em que a emissora fazia cinquenta anos de atividade,
num dia emblemático conhecido mundialmente como dia da mentira, referência
clara ao que, para a multidão, a emissora faz: mentir. Em entrevista um dos
manifestantes expressou o pensamento do grupo:
Queremos
mostrar publicamente que a Globo sonega impostos, manipula informações,
deturpa, que teve um papel fundamental na ditadura militar e agora tenta um
novo golpe. Eles não têm ideia de quantas pessoas estão a favor da Dilma. A
Globo define a pauta para o Brasil inteiro, a mídia do Brasil é uma das mais
corrompidas. Queremos a mídia democrática, disse. (GRUPO, 2016)
Linha de pensamento que condiz com dados da
pesquisa liberada pela FPAbramo sobre a percepção do brasileiro com relação à
mídia.
Os meios de comunicação no Brasil costumam defender os
interesses sobretudo dos seus próprios donos (35%) e dos que têm mais dinheiro
(32%), avalia a maioria da população brasileira. Para 21% os meios defendem
prioritariamente os políticos e apenas 8% acreditam que defendem mais os
interesses da maioria da população.” (FUNDAÇÃO, 2013, p.20)
“O
povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo!” tem página no Facebook e encontramos lá críticas contra censuras a canais de
televisão, sítios de internet ou material impresso, ou seja, não é um movimento
que tenta criminalizar a mídia, mas reformá-la, democratizá-la de forma a
atender os interesses da população.
O grupo se organiza a partir da
página de eventos da rede social, marcando atos, passeatas, protestos,
“vomitaços” e “twitaços” (tipos de protestos nas redes sociais). O grupo é
essencialmente político e se posiciona, por exemplo: a favor de ações
afirmativas, defendem a teoria de que ocorreu um golpe constitucional contra a
Presidenta Dilma Rousseff orquestrada pela mídia, setores conservadores da
sociedade e figuras de importância do judiciário como Gilmar Mendes e o Juiz
Sérgio Moro.
5.
CONCLUSÃO
O
bradar possui um significado claro para uma multidão de pessoas: “não queremos
mentiras”, existe como maneira de afirmar o ser humano como portador de
subjetividade, como forma abstrata de embarcação para críticas, para reformas
na forma de ver e ouvir a informação. Para a multidão emancipada, para aqueles
que não vivem à margem das informações, que não se deixam levar pelo caráter
manipulador dos meios de comunicação e de todo o fascismo institucionalizado “O
povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo” é mais que uma palavra de ordem, é
símbolo de resistência, é um grito de agonia dos oprimidos que não vêm a
televisão como um espelho de sua realidade, mas como uma realidade forçada por
um grupo de poderosos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADORNO,
Theodor. Educação e Emancipação. Trad.
Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
____.
“Televisão e Formação”. In: Educação e Emancipação. Trad. Wolfgang
Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
____.
“Dialética do Esclarecimento”. Trad.
Guido de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
FUNDAÇÃO
Perceu Abramo. “Democratização da Mídia”.
São Paulo: FPAbramo, 2013.
GRUPO pede o fim da Rede Globo em ato em frente à emissora”. Disponível em:
TIBURI,
Marcia. “Como Conversar com um Fascista”.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
____.”Indústria cultural da
antipolítica – O caráter manipulador”. In: Como Conversar com um Fascista. Rio
de Janeiro: Record, 2015.

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